Garganta
Confundindo sentimentos
Minha garganta dói. O sintoma é ridículo, mas, pensando bem, é sempre assim que começa. Não importando se foi bebido aos goles ou de uma vez só: veneno é veneno. E os efeitos logo surgem por todo o corpo. Sua garganta se fecha – sua cabeça começa a doer. Seu coração bate desesperado na tentativa de bombear o veneno para fora do corpo. Seus joelhos estão fracos, e suas pernas tremem – logo os seus braços tremerão também – e, quando dá por si, a visão começa a enturvar-se. E, de repente, tudo fica branco. Você está num imenso vazio. Esquece seu nome, o que estava fazendo e aonde pretendia ir. Você só consegue se lembrar de uma coisa: veneno.
A variedade destes é extensa: existe todo o tipo de veneno ao nosso redor, contidos nas presas de cobras astutas que passeiam pelas ruas, casas e prédios. Elas sabem escolher bem uma vítima, dissimulam a situação até que nós tenhamos baixado a guarda e, então, dão o bote. Não costuma doer na hora. Mas depois, quando o veneno se espalha pelo seu sangue, as consequências ficam claras. Os motivos, óbvios. E, na maioria das vezes, o soro antiofídico está longe demais.
Particularmente, eu odeio todas essas sensações. Medo, espalha-se rápido e, ainda por cima, é transmissível. Basta ter alguém com medo para você se apavorar. E quando se está sozinho, o medo torna-se mais agressivo. Porque aí são dois venenos. Solidão, depressiativa, é claro. Não é a mesma coisa que estar só. Estar só é uma escolha. Solidão é um estado desesperador. Mas, pior que solidão é a angústia. Fecha todo o seu sistema respiratório, como um nó em sua garganta. Quando se há tensão demais, a angústia torna-se raiva. A raiva aumenta o ritmo dos batimentos do coração, e aquece de uma forma dolorosa. Ela queima. Outra coisa que queima, dessa vez, a sensação é de que algo incinerou seus órgãos em pleno funcionamento, é o ciúme. É tão parecido com a inveja que, muitas vezes, confundo os dois.
Na realidade, nenhum desses sentimentos age sozinho. Eles vêm sempre em conjunto, um trabalhando para reforçar o outro, de forma que parecem se misturar ao longo do tempo. Acho que estas cobras costumam atacar em grupo. Uma delas, porém, é a verdadeira mandante do crime. Ela é a responsável por todas as outras trabalharem em conjunto e ao mesmo tempo, de forma e nos deixar completamente sem reação. E pasme: a maior parte da sociedade proclama-a como bela e admirável. Eu suponho que eu deva descrever a figura aqui para, caso você encontre com ela pessoalmente, possa fugir o mais rápido possível.
Alguns dizem que têm cabelos loiros, outros insistem que é morena. Para alguns é homem, para outros é mulher. Os olhos são indefinidos entre verde, azul e castanho, passando por âmbar e cor-de-mel. De vez em quando baixa, de vez em quando alta. Sua aparência física varia muito, mas é importante atentar-se aos detalhes. O que todos esses perfis têm em comum é sua suposta inocencia e inofensividade. Ela conquista facilmente com um olhar e apenas um deslize já é suficiente para que você caia em sua ladainha. Muito cuidado com esse monstrinho a quem chamam amor.
Não importando se foi hoje ou no século passado, veneno é veneno. Restam sequelas. O mais interessante, contudo, não é o efeito do veneno em você – e sim o fato de, de vez em quando, estes venenos serem tão prazerosos.